Quem vê as xícaras de porcelana e outras bugigangas com a cara do Príncipe William e da noiva, Kate Middleton, nas lojas de Londres muitas vezes se esquece da indústria que está por trás da fanfarra real. Só a venda de lembranças do casamento, que acontece no próximo dia 29, deve movimentar mais de meio bilhão de reais, um estímulo à economia local em tempos difíceis.

No total, a cerimônia deve movimentar em torno de R$ 1,38 bilhão (ou 527,1 milhões de libras), segundo estimativa do Centre for Retail Research, instituto de pesquisa de mercado sediado em Nottingham, na Grã-Bretanha. Só na internet devem girar R$ 237 milhões (90,7 milhões de libras), ou 17,2% do total. A popularização do comércio eletrônico nos últimos dez anos deve fazer com que as vendas fiquem no mesmo patamar que as do casamento do Príncipe Charles com a Diana, em 1981, que tinha muito mais apelo e foi assistido por 750 milhões de pessoas ao redor do mundo.

Além dos cerca de R$ 520 milhões de suvenires, o restante ficará por conta de gastos com comida e bebida (aproximadamente R$ 409 milhões), turismo (R$ 161 milhões) e despesas extras por conta do feriado bancário de 1º de maio (R$ 287 milhões). Fosse outra a época do ano, a movimentação poderia ser ainda maior, de acordo com o centro de pesquisa. O final de abril ainda é meio da primavera no Hemisfério Norte e as temperaturas costumam ser agradáveis, entre 13ºC e 15ºC, mas não tão altas como em junho e julho, o que atrapalha festas ao ar livre.

Em contraste com o casamento de Charles e Diana, que teve um tratamento mais "oficial", os artigos que marcam a festa de William e Kate tem uma nota de irreverência. Pratos com frases do tipo "Obrigado pelo dia de folga grátis" ou "Era para ter sido eu" têm feito sucesso em lojas de departamento famosas da capital inglesa. Dave Bell, diretor da agência de comunicação KK Outlet, que criou as peças, comemora.

"Fazemos todo tipo de campanha, mas nunca suvenir. Quando surgiu a história do casamento, tivemos a ideia de fazer a nossa leitura do casamento, algo moderno e pensamos como seriam os suvenires na geração do Facebook." A aposta deu certo: já foram vendidos mais de 4.500 pratos, a 20 libras cada um, e a agência recebeu encomendas para os Jogos Olímpicos, que acontecem em Londres no ano que vem.

A rede de supermercados Tesco fez uma versão mais em conta do vestido azul da grife brasileira Issa usado por Kate no dia do anúncio do noivado, que logo sumiu das araras. A empresa de transporte público de Londres produziu uma carteirinha com a foto dos noivos para guardar o cartão Oyster, espécie de bilhete único. Horas após a cerimônia, a gravadora oficial do evento, a Decca Records, vai liberar no iTunes o download com a gravação dos votos trocados entre William e Kate.

A Crown Jewels conseguiu polemizar ao lançar camisinhas com a cara dos dois na caixa. A empresa promete "uma união real de prazer ao combinar o vigor de um príncipe à fragilidade submissa de uma futura princesa". Teve até uma empresa que errou de príncipe e mandou imprimir xícaras com as fotos de Kate e Harry, irmão de William. E ainda continua vendendo o mimo pela internet.

Apesar da "invasão" de suvenires pouco ortodoxos, os tradicionais também continuam com mercado. Cinco anos sem evento real algum de relevância, nas suas palavras, Andrew Cousins, 43, comemora a maré alta. Ele é diretor-executivo da Peter Jones China, um dos principais vendedores de porcelanas e suvenires do país.

A empresa desenha os produtos e depois faz encomendas para fábricas de renome no setor. Um dos produtos de sucesso é o urso de pelúcia da marca Steiff, a grife alemã mundialmente conhecida por ter sido uma das criadoras desse tipo de brinquedo. O preço é £ 160 (cerca de R$ 420), mas a loja tem aceitado pagamento parcelado para impulsionar as vendas. O item mais popular é uma xícara nas cores azul-turquesa com a foto dos noivos, por £ 29,95 (R$ 78). "Já tínhamos o desenho pronto há uns dois anos. Quando o anúncio do noivado saiu, fomos os primeiros a lançar produtos."

Para o Royal Collection Trust, instituição que cuida da coleção real e, por extensão, da comercialização dos suvenires oficiais, também é uma oportunidade para faturar. Os objetos com as iniciais dos noivos, que estão à venda pelo site e nas lojas dos palácios e residências reais, incluem: três tipos de caneca, uma caixinha e um prato, além de um coraçãozinho de veludo azul claro e uma tolha de chá. O valor arrecadado não é revelado, mas o lucro fica com a entidade, que coordena as visitas aos palácios e residências reais e promove exposições do acervo real, como pinturas, mobiliário, esculturas, jóias, mapas, armaduras etc.

Acomodação

Por conta do casamento, os hotéis da cidade devem ficar bem cheios e encontrar acomodação barata pode virar uma tarefa desafiadora. De olho na ocasião, algumas famílias têm colocado quartos e até o próprio apartamento para alugar. Melinda Messam, 34 anos, que trabalha com vendas, conta que já planejava viajar na semana depois da Páscoa com o marido. "Vamos para Nova York e queremos trocar de casa com alguém de lá. Com o casamento, o interesse em vir para Londres nesta semana aumentou e foi ótimo para a gente."

Com tantas informações, fotos e histórias bombardeadas na mídia, há, porém, provavelmente quem não aguente mais ouvir falar no casamento real. Para quem estiver cansado, a ponto de ficar nauseado, a artista e ilustradora Lydia Leith, de 24 anos, desenhou um saco de vômito com a cara do Príncipe William e a noiva. Acima das ilustrações, um trocadilho: em vez da palavra "throw up" (vomitar, em inglês), está escrito "throne up" (throne = trono). Mas Lydia vai logo se explicando: "Foi uma maneira de brincar com o casamento, não tenho nada contra a família real". E não deve ter mesmo. A venda dos sacos passou de 4.000 unidades e lhe deu projeção. "Nem acredito que está sendo vendido na Selfridges", diz, referindo a uma loja de departamento de marcas famosas na capital inglesa.