Ofensas, apelidos e até agressões físicas ocorridas em escolas podem ter ligação com o bullying, nome originário da palavra inglesa bully, que significa valentão, brigão. Mesmo sem uma denominação em português o termo é entendido como ameaça, tirania, opressão, intimidação, humilhação e maltrato e pode refletir em comportamentos violentos ou no isolamento por parte das vítimas.

Ser gordo, magro demais, usar óculos, ter nome engraçado ou gostos diferentes daqueles considerados “padrão” no ambiente escolar podem contribuir para o bullying. Diante disso, o projeto de lei 228/10, de autoria do senador Gim Argello (PTB-DF), que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) prevê que os estabelecimentos de ensino promovam um ambiente escolar seguro e adotem estratégias de prevenção e combate a intimidações e agressões.

Especialistas apontam que o comportamento de Wellington Menezes de Oliveira, 24, que invadiu a Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro – onde ele estudou – fez cerca de 60 disparos, matando 12 crianças e deixando mais 12 feridas pode ser reflexo de bullying, atrelado à esquizofrenia — doença mental que se caracteriza pela ruptura com a realidade.


O atirador, que cometeu suicídio logo após o massacre, era considerado uma pessoa calada, e desprezado pelas meninas – suas principais vítimas – por ter um comportamento estranho. Na época da escola ele recebeu o apelido de Sherman, em referência ao famoso nerd interpretado pelo actor Chris Owen no filme "American Pie e também era chamado de "swing", pois mancava de uma perna.

Pessoas que estudaram com Wellington afirmaram que ele era completamente maluco e ainda, que era perceptível na sala de aula que ele tinha algum tipo de distúrbio. Bruno Linhares, de 23 anos, revelou que uma vez, um colega bateu nas costas de Wellington e disse a brincar: Nós temos medo de ti porque um dia tu ainda vais matar muita gente".

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa, autora do livro ‘Bullying - Mentes perigosas nas Escolas afirmou que o bullying foi o termômetro que alimentou a esquizofrenia de Wellington, que preparou tudo de forma minuciosa por anos, comprando armas, aprendendo a atirar, além de esperar a comemoração dos 40 anos da escola porque sabia que ex-alunos dariam palestras e que poderia entrar facilmente.

Segundo Ana Beatriz Barbosa o teor da carta de Wellington indica que ele sofreu abuso sexual. Em um trecho, ele escreveu: ‘nenhum impuro pode ter contato direto com um virgem sem sua permissão’. “Isso é muito característico de quem sofreu abuso. Pode ter sido desde insinuações — porque um garoto com predisposição à esquizofrenia é esquisito e pode ter sido confundido com gay — até um estupro”.

Modelo educacional X Bullying

Segundo a pedagoga alagoana, Elizabeth Patriota nenhuma medida de segurança poderia evitar o massacre que ocorreu no Rio de Janeiro. Ela afirmou que o atirador sofria de um caso grave de psicopatia. Para ela, a escolha da escola para o ato delituoso possibilita a reflexão de educadores e estudantes, que devem repensar como a prática de bullying pode refletir na mente das pessoas.

“O bullying pode não ter sido o principal motivo para ele fazer o que fez. Ele não tinha nada de ruim no registro escolar, mas voltou ao local para se vingar, do que a gente não sabe. O ambiente escolar é um lugar social onde ficamos boa parte do nosso tempo e construímos os primeiros laços afetivos. Antes, as crianças brincavam com vizinhos, mas agora vão cada vez mais cedo para a escola, onde existe uma formação da personalidade”, lembrou.

Elizabeth lembrou que a questão também entra no mérito do livre acesso ás armas no Brasil. “Atitudes dessa natureza são imprevisíveis, principalmente por conta da psicopatia e a carta deixada demonstra isso. Mas, será que os educadores estão trabalhando para conhecer seus alunos?O ensino tem ficado esvaziado de humanidade. Para garantir a sobrevivência os professores se dividem entre várias escolas, não existe uma equipe pedagógica, não há um trabalho de resgate do ser humano”, lembrou.

Ela destacou que assim como acontece na educação inclusiva profissionais que trabalham em escolas e até os próprios estudantes têm que adotar uma nova postura, tanto em relação ao bullying quanto à reflexão sobre a formação humana.

“Assim com tem o braile e a libras para aqueles que apresentam necessidades especiais tem que ter atividades voltadas para quem apresenta problemas, como isolamento. Quando o professor vê alguém quieto acha bom, mas não se sabe o que está implícito naquele comportamento. Precisamos ter um olhar crítico diante dessas questões’, ressaltou.