Alagoano que sofria de miocardiopatia isquêmica, agora vive com dois corações

  • carlinhos
  • 12/08/2009 11:52
  • Maceió
O escriturário alagoano aposentado Gilberto Ramalho Xavier, 62, tem agora dois corações. Ele recebeu o segundo na madrugada de ontem (11), em transplante realizado pelo cirurgião-cardíaco José Wanderley Neto e sua equipe, na Santa Casa de Misericórdia de Maceió.

 
Gilberto Xavier, que é casado e pai de dois filhos, sofria de miocardiopatia isquêmica, adquirida em consequência de um enfarte do miocárdio, e estava na fila de transplante há mais de um ano – período bem superior à média, que é de seis meses.

 A técnica utilizada, de implantação de um segundo coração, é cientificamente chamada de heterotópica e foi, segundo José Wanderley Neto, a única opção para salvar o paciente. É que o coração doado, que pertencia a uma mulher de menor estatura e peso, sozinho não cumpriria sua função de bombear o sangue.

Por ser menor, o coração doado não tinha indicação de ser transplantado no sr. Gilberto Xavier na forma convencional e iria para outro paciente na fila de transplante em Sergipe. Por isso optamos pelo transplante heterotópico, em que implantamos o coração doado para trabalhar junto com o coração remanescente, que, mesmo com problema, vai ajudar a consolidar o bombeamento do sangue – disse José Wanderley Neto.

 Segundo ele, o quadro de saúde do transplantado é bom. “Ele está tendo evolução dentro do esperado”, disse. A previsão de alta é para entre duas a três semanas.

Este foi o quinto transplante cardíaco heterotópico realizado em Alagoas – o primeiro foi em setembro de 1999 - e consolida nacionalmente o domínio da técnica pelo cirurgião José Wanderley Neto e sua equipe. A literatura médica registra apenas 15 transplantes do gênero no país.

 Sobrevivente

O aposentado Gilberto Xavier foi o candidato que mais sobreviveu na fila de transplante cardíaco em Alagoas. Foram exatos 16 meses. A média é de seis meses, em razão de que na quase totalidade dos casos são pacientes em condições muito desfavoráveis e as doações não são em quantidade suficiente, além de que muitas vezes quando ocorrem o órgão não é compatível.

 Seu drama começou no final de 2007, quando sofreu um enfarte do miocárdio que destruiu parte do coração. Em casos assim, a área lesionada passa a se dilatar, tornando o coração pesado e lento para cumprir sua função.


Em janeiro de 2008 passou por uma cirurgia cardíaca para revascularização do miocárdio, com a colocação de duas pontes de safena e ressecção (retirada) de parte do coração, para dar condições de bombear normalmente o sangue.

 Apesar desses esforços – disse José Wanderley Neto – a operação não foi suficiente para lhe dar uma boa condição de vida. A área afetada do coração voltou a se dilatar e contribuir para destruir as áreas ainda sadias. A indicação então era de transplante.

Mas a cirurgia foi de grande importância, pois restabeleceu o fluxo sanguíneo na região cardíaca e contribuiu para dar condições mínimas de funcionamento do coração até o aparecimento de um doador.

Na esperança de que o prazo da doação pudesse ser abreviado, Gilberto Xavier viajou a São Paulo e se inscreveu na fila de candidatos a transplante cardíaco do Instituto do Coração (Incor). Semanas após, reavaliou a decisão: concluiu que suas chances seriam maiores em Alagoas e retornou, cadastrando-se na Central de Transplante em abril.

Enquanto a doação não vinha, o aposentado se internou múltiplas vezes com insuficiência cardíaca no Instituto de Doenças do Coração da Santa Casa, num quadro de crescente agravamento.

 
A doação

 
O coração tão esperado por Gilberto Xavier chegou na noite de segunda-feira (10). Pertencia a uma mulher de 51 anos de idade, natural do município de Jacaré dos Homens, que morreu no Hospital do Açúcar em consequência de um aneurisma cerebral. A doação foi autorizada por sua família.

 
De imediato a equipe da Central de Transplantes do Estado mobilizou o cirurgião-cardíaco José Wanderley Neto e sua equipe e, após os testes que confirmaram compatibilidade entre doadora e receptor, os procedimentos de transplante foram iniciados.

O coração foi retirado da paciente, com morte cerebral declarada horas antes, e levado até a Santa Casa para o transplante, que começou às 3h e acabou às 8h de terça-feira.