Reginaldo Faria critica ‘censura velada’ no cinema nacional

  • eduardocardeal
  • 12/08/2009 01:43
  • Cultura
Reginaldo Faria fez críticas ao sistema de incentivos fiscais para a produção de filmes no Brasil, em coletiva de imprensa realizada na tarde desta terça-feira (11), no Festival de Gramado. O ator de 72 anos será homenageado com o troféu Oscarito, por sua atuação no cinema nos últimos 50 anos.

“É evidente que eu gostaria de voltar a dirigir filmes, mas encontro muitas dificuldades. A gente consegue a aprovação da lei, mas daí esbarra no patrocínio ou nos editais”, lamentou o ator, que além de atuar em filmes que marcaram época como “O assalto ao trem pagador” (1962) e “Lúcio Flavio, o passageiro da agonia” (1978), também dirigiu quatro e produziu cerca de 40 longas na RF Farias, produtora que mantém com o irmão, o cineasta Roberto Farias.

“Não sei com que direito a comissão julgadora de um projeto tenta corrigir alguns aspectos de um filme. Até no elenco eles apontam problemas, dizem que o roteiro não está adequado ao público alvo”, reclamou o Faria, que recentemente teve reprovada a proposta de um longa que tem os títulos provisórios de “O carteiro” ou “Para que me escutes”.

 Segundo o ator, o roteiro conta a história de um carteiro que viola as correspondências em uma pequena cidade no qual a internet ainda não chegou. “Eu queria que o Marcelo [Faria, seu filho] fizesse o papel. Mas a comissão julgadora considerou que ele é um ator ‘muito urbano’. Para mim, um ator pode fazer qualquer papel”, opinou.

“Essa comissão também alegou que não existe no país uma região que não tenha internet e que por isso o público jovem não se identificaria".

O ator relacionou as dificuldades aos tempos da ditadura. “Eu pergunto: onde fica a liberdade de expressão? O artista quando escreve uma obra, não sabe se ela fará sucesso ou não”, explica.

“Há trinta anos tínhamos a censura política. Hoje o que existe é uma censura velada por parte dessas comissões julgadoras de incentivos”, apontou. “Essas exigências são cruéis com o artista, principalmente para aqueles que tem mais de 50 anos de cinema".

Roberto Farias, também presente na entrevista, completou o raciocínio do irmão. “Somos de um tempo que não existia incentivo fiscal. A gente vendia a casa, a bicicleta, pedia dinheiro no banco ou no agiota para fazer filme. Hoje, esses recursos são cedidos por gente que se acha no direito de definir que filme deve ser feito ou não”, criticou o cineasta.

Para Farias, as leis de incentivo fiscal precisam ser mudadas. “É necessário criar um modelo de cinema que não dependa do governo. Um sistema que seja competitivo, para que cada um possa conquistar seu espaço”.