Estrangeiros enfrentam dificuldades para ‘traduzir’ crise no Senado brasileiro

  • teresa
  • 08/08/2009 06:26
  • Brasil/Mundo
Nomeações de funcionários por meio de “atos secretos”, imóveis funcionais cedidos a parentes e mansões não declaradas, acusações de nepotismo, bate-bocas no plenário, tudo isso tendo como pano de fundo as eleições presidenciais de 2010. Se já é difícil para um brasileiro acompanhar a avalanche de denúncias que atinge o Senado, para estrangeiros, ‘traduzir’ a crise é quase uma missão impossível.

Para alguns destes estrangeiros que acompanham atentamente a política brasileira, isso ocorre porque muitos dos elementos envolvidos do mais recente “escândalo que pode paralisar o governo Lula”, como descreveu em edição desta sexta-feira (7) o “New York Times”, são próprios da cultura local.


“O Congresso americano não tem um [José] Sarney. Isso é inédito, só existe no Brasil”, diz o cientista política da UnB (Universidade de Brasília) David Fleischer, norte-americano que vive no país há 47 anos. Segundo ele, mesmo no Brasil não há caso em que um ex-presidente tenha se tornado chefe do Poder Legislativo – no caso de Sarney, alvo principal dos atuais escândalos, pela segunda vez.

Para além dos infindáveis mandatos brasileiros, no entanto, o cientista político vê no discurso do presidente do Senado esta semana – em acusou todos os demais parlamentares a de terem cometido atos semelhantes aos seus – como reflexo de uma cultura política à brasileira.

“Não tem nenhum brasileiro que talvez não cavasse um emprego para um neto ou neta. Isso é muito comum na cultura brasileira”, diz o professor da UnB, que o ex-presidente da Câmara Severino Cavalcanti, logo ao assumir, nomeou o filho para titular da Superintendência Federal de Agricultura, Pecuária e Abastecimento em Pernambuco.

Embora admita que escândalos não sejam exclusividade do Parlamento brasileiro, Fleischer vê na mistura entre público e privado e nos privilégios de que gozam os congressistas fatores que dificultam o entendimento da crise no exterior.

“Deputados e senadores americanos já foram mandados para a prisão. Todas essas maracutaias, o americano conhece. Mas lá, o sujeito não tem fórum especial [para ser julgado]. É um pouco difícil passar para o povo americano entender”, afirma o professor, responsável pela edição da newsletter semanal Brasil Focus.

Impunidade

Ao comparar a crise no Congresso ao recente escândalo envolvendo parlamentares britânicos, o jornalista argentino Eduardo Davis, em Brasília há quatro anos, acrescenta a impunidade como outro agravante da crise local.

“Há uma diferença porque na Inglaterra este é um assunto que parece provocar muito mais vergonha, provoca demissões. Talvez isso pode ter alguma relação com um certo grau de impunidade na América Latina”, diz o correspondente da agência de notícias Efe para a região.

O uso abusivo de verbas parlamentares descoberto em Londres levou um grupo de deputados e lordes a deixarem seus cargos e à renúncia do presidente da Câmara dos Comuns, Michael Martin.

Davis vê semelhanças na política dominada por “caciques” partidários nesta parte do continente, mas acredita que crises locais, como a atual, só despertam a atenção dos estrangeiros quando atinge o governo federal, com reflexos, por exemplo, nas eleições presidenciais.

“Se isso tivesse acontecido há dois anos, este escândalo talvez não tivesse a mesma dimensão do que às véspera das eleições. Todos sabemos que os anos anteriores às eleição são de campanha, de articulações”, diz.

O inverso, segundo ele, também se dá no Brasil. “Ninguém no Brasil entendeu o que estava acontecendo em Honduras até o golpe. Só quando ocorreu o golpe, a imprensa conheceu um personagem como [Roberto] Michelleti, e ele era o presidente do Congresso.” Michelleti assumiu a presidência interina do país após o golpe que depôs o presidente Manuel Zelaya.

Guia da crise

Correspondente no Brasil do site GlobalPost e colunista do “New York Times”, o jornalista Seth Kugel reuniu, com a ajuda de David Fleischer, perguntas e respostas para entender a atual crise. No artigo intitulado “Brazilian Senate scandals: a guide” (Escândalos no Senado brasileiro: um guia), ele compara as denúncias no Brasil às acusações que levaram um vereador de Nova York, Miguel Martinez, a renunciar ao cargo e restituir cerca de US$ 100 mil aos cofres públicos.

“Isso simplesmente não aconteceria no Brasil. Renunciar ao cargo: ocasionalmente. Devolver dinheiro aos cofres públicos: raramente. Ser preso? Provavelmente nunca. Relembre os últimos escândalos e você achará muitos dos seus protagonistas de volta aos cargos públicos”, escreve.