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Ainda na jovem Arapiraca da década de 90, o município atravessava um período de grande importância economicamente, era o auge da fumicultura, da feira livre e a transição comercial que levaria a cidade a se tornar um dos grandes centros do Estado de Alagoas.

Mas nem só de trabalho vive o homem, e o município arapiraquense viu nas grandes festas de carnaval fora de época, a oportunidade de desanuviar a cabeça da população com a tradicional micareta, no caso de Arapiraca, a “Micaraca”.

No corredor da folia, montado da Avenida Governador Lamenha Filho, tinha gente de tudo quanto era canto, de cidades alagoanas e dos Estados vizinhos, a exemplo de Sergipe e Pernambuco, todos com uma única finalidade, curtir a onda do Axé Music, que naquela época era embalada pelas bandas Chiclete com Banana, Asa de Águia, Olodum, Timbalada, Banda Eva, Netinho, entre outros tantos nomes.

E no compasso das guitarras e percussões, era praticamente impossível não se aquecer naquele calor humano. Arquibancadas e camarotes lotados para os três dias de festa, não dava para mensurar a quantidade de pessoas que circulavam por alí. Ai daquele que dissesse que ficaria de fora, era um verdadeiro pecado perder um dia.

Entre os tradicionais blocos de Arapiraca, o Azul e Branco e o Chiclete com Cachaça eram os que mais vendiam abadás, e os produtores Amadeu Ramos e Sérgio Lúcio, respectivamente, falaram sobre o que era a Micaraca, e como ela movimentava a cidade e todo um povo.

Naqueles dias de Micaraca muitos foram os estilos, desde o cabelo raspadinho, estilo Ronaldinho, ao duro de pixaim, do uso de pochete até as bandanas do Bell Marques, das sandálias rasteiras aos tênis, tudo era febre, todos usavam, tinha de tudo.

“A economia tinha um aquecimento muito grande. A rede hoteleira, as costureiras com a customização dos abadás, as lojas de roupas e calçados, os salões de beleza, a mão de obra com a montagem e desmontagem da estrutura de camarotes e arquibancadas, os cordeiros e os seguranças, todos ganhavam com a Micaraca. Além da divulgação do nome da nossa cidade para o país inteiro. Sem dúvidas proporcionávamos lazer para o nosso povo”, destacou Amadeu Ramos, produtor do Bloco Azul e Branco.

“O evento movimentava toda a cidade. Os hotéis ficavam tomados tanto por pessoas que vinham para curtir o evento, quanto pelos artistas que vinham para cá se apresentar. As feijoadas e os esquentes nos bares e chácaras eram as atrações diurnas que antecediam a festa. A Micaraca movimentou a economia local, todos saiam ganhando”, apontou Sérgio Lúcio, do Bloco Chiclete com Cachaça.

A divulgação

Em uma época em que a tecnologia não era tão avançada quanto hoje, rádios, outdoors, jornais e cartazes eram os meios de propagar o evento. Os organizadores tinham de se desdobrar para chamar a atenção do público, e dentro dessa perspectiva a criatividade do arapiraquense se desenrolava.

“O rádio era o nosso maior meio de divulgação. Sem a internet era através das rádios de nossa cidade que propagávamos as nossas ideias e atrativos. Outra forma de divulgação na época era a mídia de cartazes e outdoors. E também as ‘blitzes’ que fazíamos nas semanas que antecediam a festa”, apontou Amadeu.

E para despontar ainda mais o evento, foi formado um grupo de divulgação, o qual saía pelos quatro cantos de Alagoas, e dos Estados vizinhos, levando cartazes com as datas e atrações da micareta arapiraquense.

“Colávamos os cartazes em postos, divulgávamos em outdoors dentro e fora do Estado, usávamos mídia televisiva, entre outros meios. Haviam também as blitzes que os blocos faziam em frente as suas sedes. O Chiclete com Cachaça já teve uma sede alí na Praça Marques da Silva, e para vender os abadás e divulgar as atrações do bloco nós fazíamos um grande evento com trios elétricos, bandas locais, etc..”, indicou o diretor do bloco.

Falando em divulgação, a micareta de Arapiraca teve grandes holofotes, e na sua segunda edição, a TV Alagoas, hoje TV Ponta Verde, transmitiu por três anos consecutivos para todo o Brasil àquela que foi a pioneira no Estado de Alagoas.

“Lembro que quando começaram as transmissões da Micaraca, os meus parentes lá de Brasília assistiam ao evento de suas casas. Bastava apenas sintonizar o canal e lá estava a nossa Arapiraca nas telas de TV de todo o Brasil. Era sensacional”, destacou Sérgio Lúcio.

O fim de uma época

De 1992 a 2004 foram 13 edições, e no último ano, as micaretas já não tinham a mesma força de antes, e seu enfraquecimento se deu por falta de investimentos de diversos lados, e, desta forma, era praticamente inviável pôr o caminhão na avenida.

“É imprescindível que os produtores tivessem um local com infraestrutura para poder colocar um bloco na avenida. E aos poucos os investidores queriam que os blocos assumissem essa parte também, e isso foi desmotivando os diretores dessas entidades”, finalizou Amadeu Ramos.

“Foi uma perda muito grande, porque era o maior evento de Arapiraca. Era um evento que teve a durabilidade de 13 anos, mas ele terminou. Não houve mais interesse. Essa geração que curtia a Micaraca sentiu muito. As gerações que não a alcançaram terão lembranças apenas por fotos ou por histórias daqueles que foram”, lamentou Sérgio Lúcio.