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As xilogravuras e a literatura de cordel são dois importantes eixos de expressão artística dos poetas populares do Nordeste.

Esse estilo literário remonta os escritos portugueses do século XVI, trazidos para o nosso país e apropriado por escritores nordestinos que colocavam seus causos em cordas e barbantes nas feiras livres – daí o nome.

O cordel abarca grande carga de dramaticidade, devido a suas histórias. Esta literatura também remete ao teor das coisas boas da vida no Sertão e conta as bravuras, anedotas e finesses do “homem matuto”.

Dois cordelistas da região Agreste de Alagoas resolveram reverenciar o São João comunitário de Arapiraca – tido como o maior do país, em termos de proporcionalidade – e o radialista e poeta José Cícero dos Santos, o Zé do Rojão, homenageado desta edição dos festejos juninos da segunda maior cidade do estado.

Deste modo, o cordelista e empresário Ronaldo Oliveira, que é membro da Acedemia Arapiraquense de Letras e Artes (Acala), elaborou 100 estrofes em um livreto que conta a chegada do Rojão do Nordeste no céu. De nome “Rádio Celestial”, o cordel traça um dilema que acaba ocorrendo no alto das nuvens.


O cordelista Noel Calixto declamando seu "Mote de São João"

No enredo, Luiz Gonzaga, o nosso Rei do Baião, teria dito que o reino de Deus estava precisando de um apresentador de um programa cultural de rádio por lá e, com a morte de Zé do Rojão – que ocorreu em novembro último –, o problema estaria solucionado. Então, dá-se a recepção do radialista e declamador de Taquarana ao céu.

“O Zé era uma figura que ultrapassava as ondas da Rádio Novo Nordeste, onde trabalhou boa parte da vida. Seu legado está aí e o resgate está sendo feito pela Prefeitura de Arapiraca”, diz Ronaldo Oliveira.

Já o cordelista, violeiro e repentista Noel Calixto, de 66 anos de idade e 40 deles voltados à poesia, afirmou que essa homenagem é devida pela importância à cultura popular alagoana. Nesta segunda-feira (23), ele prometeu recitar um poema intitulado “Guerreiro Zé do Rojão” durante o projeto Cultura na Praça, que acontece a partir das 8h, na Praça Luiz Pereira Lima, bairro do Centro.

Ele, apesar de ser de Feira Grande, sabe da culminância do resgate da tradição nordestina proporcionado pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (Sectur) e elaborou o cordel “Mote São João”, falando dos arraiais comunitários de Arapiraca, onde está havendo concurso pela 12ª vez.

Calixto, por sua vez, recitou sua obra na última segunda (16), durante a abertura do Minha Loja, Meu Arraiá. Leia na íntegra:

MOTE SÃO JOÃO (Noel Calixto)

O São João da cidade
É bom, mas não tem palhoça
Gosto é do São João da roça
Que tem de tudo à vontade
Se vir a comunidade
Debaixo de um palhoção
Enfeitando o pavilhão
Sem contratar operário
O São João comunitário
É o melhor da região

Quando é de tardezinha
O sertão vira uma graça
De longe vê-se a fumaça
De outra fogueira vizinha
E um bocado de mocinha
Fazendo adivinhação
Com água, agulha e carvão
No fundo de um aquário
O São João comunitário
É o melhor da região

Sempre tem um sanfoneiro
Para tocar o forró
Cada qual com seu xodó
Seja casado ou solteiro
A fogueira no terreiro
Fogo de lágrima e balão
Classe média e tubarão
Cozinheira e culinário
O São João comunitário
É o melhor da região

Tem diversas maravilhas
Busca-pé, traque e chuvinha
Samba de coco e rodinha
Chama atenção das famílias
Tem concursos de quadrilhas
Por conta da comissão
Porém a premiação 
Dá-se a quem for necessário
O São João comunitário
É o melhor da região

Tem pamonha e milho assado
Tem carne, assada na brasa
Mais tarde, o dono da casa
Diz: “Por hoje, tá encerrado!”
A fogueira tem queimado
O derradeiro tição
Termina a sambiação
Já cumpriu-se o calendário
O São João comunitário
É o melhor da região