Vamos preservar o "Velho Graça" (mas não perdamos a sensatez)



Por Maxwell Lucio Barbosa

Vamos preservar o Velho “Graça” (mas não perdamos a sensatez)

“(...)Mas o que se não compreende é que uma chusma de criaturas mais ou menos civilizadas se possa comprazer friamente em inutilizar uma obra de arte que a gente admira. Vem isto a propósito do apedrejamento e da destruição do monumento de Eça de Queirós, em Lisboa. 

Nunca ninguém pensou talvez que em Portugal houvesse homens capazes de cometer semelhante atentado, atentado que a nossos olhos tem quase as proporções de um sacrilégio.”.

Graciliano Ramos

Peço vênia ao Professor Ronaldo Nobre Leão que postou o texto acima nas redes sociais para poder utiliza-lo neste comentário, ficando o registro que a reprodução não é integral.

Naturalmente dá para perceber que o comentário tem relação com a atitude da professora que tirou uma foto sentada sobre os ombros da estátua do mestre “Graça”, que fica na orla de nossa querida e linda Maceió.

Minha opinião é a professora teve um momento “sem noção”. Mas taxa-la, adjetiva-la nas redes sociais da forma que foi feito, inclusive de depredadora do patrimônio público, extrapola o bom senso.

Dezenas, centenas, milhares de pessoas se arvoraram de defensores do patrimônio público, do dinheiro público, da moral pública, se arvoraram do direito de julgamento e DETONARAM a “pobre” professora (“pobre”, neste caso, trata-se de uma ironia, nada de ofensas) de forma tão acintosa, tão contundente, até vexatória podemos dizer.

Ora, quantos dos pseudos julgadores jogam lixo nas ruas a exemplo de copos descartáveis, latas de cervejas, ou de refrigerantes, ou de água mineral, bitucas de cigarros, embalagens de balas etc;? Quantos em repartições públicas (ou empresas particulares) estão dispostos a pagar a velha “gorjeta” para ter prioridade ou facilidades no seu atendimento? Quantos foram (e irão) às urnas para dar um voto para candidatos que respondem um sem número de processos, ou que sabidamente corruptos? Quantos fazem vistas grossas para a situação de nossos hospitais onde pessoas morrem sem sequer ter a oportunidade de serem atendidas (é comum vermos grávidas darem à luz nas calçadas e portas de hospitais por não existirem vagas)? Quantos fazem vistas grossas para a situação de nossas escolas, da segurança pública, enfim, para a situação de calamidade política que vivemos? Quantos fazem uma busca regular nas dependências de suas residências e arredores para combater o famigerado mosquito aedes aegypti?

 Infelizmente o espaço não me permite estender indefinidamente meus questionamentos, mas os questionamentos acima já dá para fazermos uma reflexão de nossas atitudes.

A professora cometeu um ato “sem noção”? Sim, cometeu e merece uma represália, afinal, nós precisamos presevar a imagem de Graciliano Ramos, um ícone de nossa Alagoas, nós precisamos preservar nossas raízes, nossa cultura.

Mas taxa-la, condena-la, coloca-la em uma posição das mais reles a que se leva uma pessoa é um tanto exagerado.

Analisemos nossas atitudes de forma imparcial (é muito difícil, é preciso ter coragem). Certamente vamos ver que ações aparentemente sem maiores consequências trazerm prejuízos imensuráveis para o meio ambiente, para o patrimônio público. Depois, se nos sentirmos aptos, vamos analisar as atitudes de nossos pares e tentar corrigi-los. Mas, com bom senso, não temos o direito promover o achincalhamento público de quem quer que seja.

Enfim, vamos parar de agir com hipocrisia?

Maxwell Lúcio Barbosa



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